Somente a prepotência e a arrogância dos homens, em achar que podem dar solução para seus problemas interferindo em ecossistemas equilibrados há milhares de anos pela Natureza, explica a irresponsável falta de previsão para os inesperados desequilíbrios que costumam provocar desastres ambientais. E como a Natureza, a todo momento, tende a reequilibrar os ecossistemas abalados, nem sempre esse equilíbrio é o melhor ou o mais adequado ao status quo que conhecemos ou desejamos.
A seguir, vou descrever, em ordem cronológica, quatro desastres bastante representativos de nossa interferência em ambientes marinhos.
1 – Cabras na Ilha da Trindade
Nos primeiros dias de abril de 1700, Edmond Halley, o descobridor do Cometa Halley, durante uma viagem científica, chegou à ilha da Trindade para realizar medições magnéticas e observações astronômicas e tentou tomar posse do local em nome da coroa britânica. Antes, porém, ele parou na ilha de Santa Helena, território britânico localizado no meio do Atlântico Sul, a cerca de 1.950 quilômetros da costa da África, onde pegou algumas cabras que serviriam para alimentar futuros navegantes britânicos que chegassem a Trindade.
A Ilha da Trindade era um território vulcânico português localizado no Oceano Atlântico, a cerca de 1.167 quilômetros de Vitória, no Espírito Santo __ desde 1957 abriga um Posto Oceanográfico e uma base militar permanente da Marinha do Brasil.
Edmond Halley ficou em Trindade por um período muito curto, pois a ilha foi alcançada em 29 de abril de 1700 por uma expedição militar portuguesa que encerrou a ocupação estrangeira. Sem serventia ao propósito original, as cabras foram deixadas para trás, se reproduziram e se tornaram pragas. Deram início a uma grande devastação da área de mata, a partir do século XVIII, e acabaram provocando a extinção das plantas da ilha.
Os portugueses, que chegaram a morar na região no século XIX, introduziram também porcos, ovelhas e galinhas. Além dos problemas provocados pelos animais invasores, os próprios moradores lusitanos deixaram uma significativa degradação humana no paraíso natural.
Em 1916, com a chegada do cruzador Barroso, para instalar uma estação radiotelegráfica, devido a demandas estratégicas da época, a ilha passou ao domínio efetivo do Brasil. A partir de 1957, diante da ameaça real da água potável da ilha acabar, pois dependia da vegetação, a Marinha do Brasil deu início aos estudos e negociações para implementar a erradicação das cabras por meio de atiradores de elite do Corpo de Fuzileiros Navais.
Houve missões também entre as décadas de 1990 e 2000, mas que precisaram ser feitas em etapas, devido a alguns problemas de execução. Em 2002, por exemplo, o relevo de Trindade dificultou o acesso a muitas localidades e apenas cerca de 200 cabras (das 800 estimadas) foram eliminadas. Muitas cabras encontraram abrigo em áreas isoladas e, em certa ocasião, os atiradores precisaram usar helicóptero. Somente em 2005, mais de 30 anos depois do início do projeto de erradicação das espécies invasoras, as últimas cabras foram eliminadas.
E aí, quando imaginaram que o problema estava resolvido, uma nova ameaça surgiu em 2012. Ironicamente, sem as cabras, que as controlava, houve a disseminação e proliferação de plantas chamadas Guilandina, que passaram a colocar em risco uma espécie de grama que só existe na Ilha de Trindade. A Guilandina, que é um forte competidor por água, suga a água da grama e a mata de sede, podendo provocar sua extinção daqui a algumas décadas.
2 – Gatos e Ratos na Ilha Marion
Em 1949, a Ilha Marion, território subantártico da África do Sul, localizado a cerca de 2.300 quilômetros ao sul do Cabo da Boa Esperança, no Oceano Índico, encontrava-se infestada de ratos, levados clandestinamente nas embarcações baleeiras no século XIX. Para solucionar o problema, funcionários da estação meteorológica da ilha levaram cinco gatos domésticos para conter os ratos que infestavam as instalações e, com isso, alteraram o equilíbrio ambiental da região.
Por milhares de anos, a ilha Marion serviu de santuário para dezenas de espécies de aves marinhas, como petréis e albatrozes-errantes. Essas aves evoluíram sem a presença de predadores naturais e, por isso, não desenvolveram mecanismos de defesa. A introdução dos gatos foi bem-sucedida na erradicação dos ratos, mas a população dos felinos ultrapassou dois mil animais e passou a se alimentar das aves, devastando as populações de aves marinhas __ segundo estimativas, os gatos matavam cerca de 450 mil aves por ano.
Em 1977, as autoridades iniciaram um programa para erradicar os gatos, combinando captura intensiva, caça noturna e o uso do vírus da panleucopenia felina como ferramenta de controle biológico. Em 1991, quatorze anos depois, o último gato foi eliminado, mas o outro problema inicial voltou com força e os roedores passaram a atacar ovos, filhotes e até aves adultas colocando 19 das 29 espécies de aves que nidificam na ilha em risco de extinção local.
Para enfrentar o problema, a África do Sul criou o Mouse-Free Marion Project para realizar a maior operação de erradicação de roedores da ilha ao custo de US$ 25 milhões. Porém, caso parte da população de ratos sobreviva, os animais poderão voltar a se multiplicar e comprometer toda a operação.
3 – O livro Jaws e a caça aos tubarões na Austrália
Em 1974, o norte-americano Peter Benchley lançou o livro Jaws (mandíbulas, em inglês), que serviu de referência para o filme homônimo de Spielberg, contando a história de um grande tubarão-branco que atacava os banhistas de uma pequena cidade turística e a jornada de três homens para tentar eliminá-lo. O interesse em tubarões surgiu em 1971 quando Benchley conheceu as aventuras do pescador de tubarões Frank Mundus. A trama foi complementada tendo como referência um rumoroso caso de ataques sequenciais de tubarão-branco em uma praia da Austrália na década de 1960.
Então, muito motivados pelo livro Jaws, os moradores de uma cidade à beira de uma baía na Austrália resolveram, na década de 1970, eliminar as “feras assassinas dos mares” desta baía de modo a torná-la mais segura para o homem.
Caçaram boa parte dos tubarões que habitavam a região. Eles só não sabiam que aqueles tubarões se alimentavam também de polvo. Sem os tubarões, a população de polvo passou a crescer sem controle e acabou com as lagostas daquela baía. Na sequência, o setor pesqueiro local, que tinha na pesca da lagosta seu sustento, quebrou e centenas de pessoas perderam seus empregos.
4 – A construção de um porto e os ataques de tubarão em Recife
Até o início da década de 1990, ataques de tubarão em Pernambuco, mais especificamente na Grande Recife, eram tão raros quanto no restante do litoral brasileiro. Havia uma população de tubarões cabeças-chata vivendo tranquilamente na região de Suape, litoral de Ipojuca, sem provocar grandes problemas para o homem.
Na construção do Porto de Suape nas décadas de 1980/90, que começou a operar em 1992, houve dois fatores principais que levaram essa população a se deslocar para a região metropolitana de Recife e originar o aumento da frequência de ataques.
O primeiro foi a degradação ambiental na região de Suape, com o aterro dos manguezais, principal fonte de comida na cadeia alimentar costeira, junto com o desequilíbrio provocado pela sobrepesca, o que diminuiu drasticamente o fornecimento de peixes e outras presas para os tubarões.
O segundo foi o fechamento da boca de dois importantes rios da região. Há milênios, as fêmeas de cabeça-chata entravam e subiam esses rios para parir seus filhotes em água doce. Sem comida e sem ter acesso a seus berçários, aquela população se deslocou para o norte, chegando à região metropolitana do Recife __ uma faixa de apenas 20 quilômetros do litoral pernambucano.
Nesta região, alguns fatores, como influências sazonais, águas turvas com alta salinidade, descarte incorreto de lixo e de esgoto in natura, que atrai a atenção dos tubarões para as regiões litorâneas, se somaram para conjugar e favorecer a atração dos tubarões para as praias. Some-se a isso a topografia submarina da região. Existem canais submarinos profundos que passam próximo às praias de Recife. Ao entrar em um desses canais, que o animal utiliza como área de circulação para procurar peixes, as possibilidades de o tubarão encontrar um surfista ou um banhista aumentam consideravelmente. E aí temos uma simples questão de estatística.
A interação entre o homem e qualquer animal selvagem resulta no surgimento ou no aumento relevante de incidentes. Ou seja, o caso de Pernambuco é o único no mundo onde o próprio homem é o responsável pelo aumento da interação do homem com o tubarão, em águas turvas com pouca visibilidade (90% dos ataques ocorrem por erro de identificação visual), e, consequentemente, pelo resultado substancial do aumento de ataques não provocados de tubarão a banhistas e surfistas nas praias de Boa Viagem, Piedade e Piva.