Entre Mares e Oceanos

com Marcelo Szpilman

Mares e Oceanos Aquecidos

Faz tempo que estamos vendo as águas dos mares e oceanos aquecendo em velocidade e intensidade cada vez maiores. Lembro perfeitamente que na ECO 92, no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, os ecologistas, hoje chamados de ambientalistas, já alertavam para esse grave problema e diziam ser necessário ascender a luz amarela.

Se na década de 1970 a temperatura média da superfície dos oceanos era de 19ºC, passadas duas décadas, subiu para 20ºC nos anos 1990 e o número de dias de ondas de calor marinhas triplicou. Ou seja, 30 anos atrás já se tinha a exata noção de que, se nada fosse feito para reverter esse processo, acrescentaríamos mais um grau nessa equação.

Infelizmente nada foi feito e esse dia chegou. O Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus (C3S), da União Europeia, acaba de nos informar que no dia 22 de agosto de 2026 foi registrada a temperatura diária recorde da superfície do mar de 21,1ºC., superando o recorde registrado em 21 de março de 2024 de 21,09°C. Lamentavelmente, ascendendo a luz vermelha, o recorde foi alcançado em agosto, quando o mais comum é que as temperatura média dos oceanos fiquem mais altas somente em março e abril, após o verão no Hemisfério Sul.

Aí você poderia pensar: o que é mais um grau de aquecimento? Dependendo do ecossistema e dos organismos que o habitam, o aumento da temperatura do mar de apenas 1ºC pode ter consequências drásticas ao aproximar ou ultrapassar seus limites fisiológicos.

Espécies marinhas que já vivem próximas de seu limite térmico podem sofrer alterações importantes de metabolismo, reprodução, alimentação e sobrevivência. E exemplos não faltam.

1 – Recifes de Coral: Espécies de coral acostumadas a no máximo 28ºC de temperatura da água podem sofrer graves consequências se a água chegar a 29ºC durante um período prolongado. Nos recifes coralinos tropicais, o aquecimento de 1ºC acima da temperatura máxima habitual do verão, se mantido por algumas semanas, pode provocar o processo de branqueamento. Se o estresse térmico persistir, o coral morre. Veja a matéria “Branqueamento de corais – O que é e o que significa”.

2 – Pesca e aquicultura: Estudos reunidos pela NOAA (Administração Oceânica e Atmosférica Nacional), agência científica e reguladora dos Estados Unidos focada no estudo e na proteção dos oceanos, da atmosfera e do clima, projetam uma redução média da biomassa animal marinha global de aproximadamente 5% para cada 1ºC de aquecimento das águas. Ou seja, pequenas mudanças na temperatura podem alterar a distribuição, o crescimento e a reprodução das espécies comerciais afetando sobremaneira os estoques pesqueiros e a oferta para alimentação humana. Veja o próximo ítem.

3 – Deslocamento das espécies: O aquecimento da temperatura das águas já tem provocado a migração de algumas espécies de peixes, invertebrados e outros organismos, que procuram temperaturas mais adequadas, para latitudes maiores ou águas mais profundas, alterando os ecossistemas das comunidades locais e as cadeias alimentares de onde deixaram de estar e para onde foram.

4 – Zonas Mortas: Quanto mais quente a água, menos oxigênio disponível __ o aquecimento reduz a capacidade da água de manter o oxigênio dissolvido. Além de contribuir para inadequação de algumas espécies que necessitam de muito oxigênio para sua respiração, como os atuns e afins, o aquecimento também aumenta a estratificação do oceano, dificultando a mistura entre águas superficiais e profundas e, assim, favorecendo as áreas de hipóxia, chamadas de zonas mortas.

Os oceanos absorvem cerca de 90% do excesso de calor proveniente do aquecimento global motivado pelo cíclico e natural acaloramento do Planeta somado às emissões de gases poluentes de efeito estufa na atmosfera. O grave problema que estamos enfrentando hoje é que essa capacidade já chegou ao seu limite e as mudanças climáticas tem provocado impactos cada vez mais catastróficos advindos de eventos meteorológicos extremos. O oceano mais quente transporta cada vez mais calor e mais umidade para a atmosfera, intensificando chuvas, tempestades, tornados e furacões.

Para piorar o problema, combinado com recordes de aquecimento dos oceanos, esse ano existe a expectativa de um El Niño bastante forte que estaria se desenvolvendo no Pacífico tropical. De acordo com as principais agências climáticas do mundo, ele poderá alcançar uma força recorde potencializando o aquecimento do Planeta e das águas.

Fora a extinção de ecossistemas marinhos e a perda de biodiversidade, com o agravamento do derretimento das geleiras e a consequente elevação dos oceanos, teremos mais inundações de regiões costeiras e urbanas, grave incremento na falta de água potável, aumento das doenças transmitidas por mosquitos, drástica redução das áreas cultiváveis e o decorrente (e dramático) crescimento da fome no mundo. Dificilmente haverá escapatória para muitas comunidades costeiras, especialmente as mais pobres, pois sua sobrevivência nas próximas décadas se tornará praticamente inviável.

Triste, especialmente para quem tem filhos e netos, mas hoje praticamente inevitável, estamos caminhando para um panorama ambiental mundial progressivamente mais obscuro.

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